Por Gustavo Martins-Coelho

Sobre acupunctura, está quase tudo dito; e o que se tem dito, em geral, é que não está provado que funcione.

Voltando à dor: disse, nas crónicas passadas, que a acupunctura não alivia a dor muscular [1], nem a dor nos doentes com cancro [2], nem a dor talâmica, que surge após um acidente vascular cerebral (AVC) [3]; mas pode aliviar a dor da artrose [3], as dores no pescoço [4], a dor de cabeça [4, 5], a dor resultante da inflamação da próstata, nos homens [6], e a dor dos doentes hemofílicos [5]; e ainda não está claro se é útil nas dores menstruais [3], nem nas dores do ombro que surgem após um AVC [7], nem na dor lombar de causa não específica, tanto crónica como aguda [8], nem na dor pós-operatória [4], nem na dor articular induzida pelo tratamento hormonal do cancro da mama [9]. Nesta semana, acrescento ainda que não está demonstrado que a acupunctura reduza o uso de medicação para a dor, nas dores não relacionadas com o cancro [10], mas tem boas perspectivas, no que diz respeito à dor causada pela artrite [11].

Em relação às doenças do espectro do autismo, os resultados dos estudos existentes fornecem provas contraditórias quanto à eficácia da acupunctura como método de tratamento [12], pelo que teremos de aguardar pela realização de mais estudos sobre o tema.

Onde também temos de aguardar pela realização de mais estudos sobre o tema é na área dos efeitos secundários do tratamento do cancro. Concretamente, estou a falar da diminuição do número de glóbulos brancos [13] no sangue, causada pela quimioterapia. Há seis estudos que apontam no sentido da moxabustão ser mais eficaz do que a medicação actualmente utilizada, mas falta-lhes a qualidade científica necessária, para retirar uma conclusão sem margem para dúvida [14].

A acupunctura também já foi testada, veja-se, para as perturbações do paladar — quer a distorção do gosto, quer a sua ausência. Em ambos os casos, o conhecimento científico actual não é suficiente para recomendar ou rejeitar a acupunctura nas perturbações do paladar e muito menos para aferir da sua superioridade ou inferioridade em relação ao tratamento comummente prescrito [15].

Passando ao objecto do dia, na semana passada [16], falámos dum automóvel em particular, o Chevrolet Corvair, que tinha um defeito na suspensão que fazia os condutores perderem o controlo do veículo e às vezes capotar, o qual foi corrigido depois que o advogado e político norte-americano Ralph Nader [17] publicou o livro: «Inseguro a qualquer velocidade», em que acusava as companhias do sector automóvel de não instalarem equipamentos de segurança, já existentes à data, apenas por razões de economia de custos. O impacto do livro na opinião pública levou à exigência de melhorias consideráveis na segurança rodoviária; e hoje vamos falar duma delas: o cinto de segurança.

Usar o cinto de segurança reduz o risco de morte entre os ocupantes do veículo em cerca de 75 %. Foi inventado em meados do século XIX pelo engenheiro inglês George Cayley, para usar no seu planador, mas rapidamente evoluiu do modelo que ainda hoje se vê nos aviões, com dois pontos de apoio, para o modelo hoje em uso nos carros, com três pontos, o qual se tornou o padrão dos automóveis de fabrico sueco em 1958. Desde 1994, o uso de cinto de segurança é obrigatório em Portugal, tanto à frente como atrás. Graças ao cinto de segurança (e não só), a mortalidade rodoviária em Portugal tem decrescido consistentemente, mantendo-se, contudo, ainda acima da média europeia, o que nos permite saber que ainda temos algum caminho a percorrer, neste domínio.

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