Por Gustavo Martins-Coelho

No dia dos namorados, achei que valia a pena falar um pouco da bioquímica do amor.

O amor é profundamente biológico e tem um efeito profundo no nosso estado físico e mental, podendo a sua falta avariar por completo a nossa fisiologia e até levar-nos à morte. O amor não é uma simples emoção, é um processo biológico dinâmico, que desencadeia processos cognitivos e fisiológicos que se perpetuam a si mesmos e tem mesmo poderes curativos.

O amor é uma causa e uma consequência da evolução das espécies [1]. A vida na Terra é social: os organismos vivos, incluindo as bactérias, interagem entre si para se manterem íntegros, crescerem e reproduzirem. Os insectos até desenvolveram sociedades complexas. Os mamíferos têm uma noção de família muito arreigada, tanto no que diz respeito aos parceiros sexuais, como no que diz respeito à protecção das crias. Claro que o amor humano é mais complexo do que os instintos animais; e isso é assim por causa do córtex cerebral [2]. O amor provém da parte mais primitiva do cérebro, que se deixa inundar por sensações viscerais, que o córtex cerebral tenta interpretar e às quais reage, criando uma narrativa amorosa.

Mas voltemos à biologia. Um elemento fundamental da bioquímica do amor é a oxitocina, que intervém no trabalho de parto [3] e na amamentação [4] e medeia o processo de vinculação dos pais aos filhos, estabiliza as relações amorosas e até faz com que, em alturas de necessidade, procuremos e recebamos apoio dos que nos rodeiam. Mas voltemos ao amor. Estudos recentes em seres humanos demonstraram que a aplicação intranasal de oxitocina facilita os comportamentos de socialização, nomeadamente o contacto visual e a cognição social, comportamentos esses que são a raiz do amor.

Além da oxitocina, as interacções sociais e o amor são mediados por uma extensa rede que se estende pelo cérebro e pelo sistema nervoso autónomo e que vai mudando ao longo da vida dum indivíduo. Além disso, os receptores celulares da oxitocina são regulados por outras hormonas, entre os quais os opióides e a dopamina. A fisiologia da oxitocina e a experiência do amor mudam com a passagem do tempo.

Há uma outra substância que interage muito com a oxitocina e que até exerce algumas funções semelhantes: a vasopressina.

A vasopressina está associada à mobilização física e emocional, suportando a vigilância e os comportamentos necessários para proteger um parceiro ou um território, bem como a auto-defesa. Da interacção entre a vasopressina e a oxitocina nasce o cuidar e a protecção dos filhos, tanto nos homens como nas mulheres, embora de formas diferentes. Essa diferença manifesta-se também na diferente probabilidade que os dois sexos têm de desenvolver perturbações mentais, nomeadamente doenças do espectro do autismo, que se caracterizam por uma alteração na capacidade de interacção social.

Além disso, a oxitocina também existe nos filhos e é responsável por reduzir a ansiedade gerada pela separação da mãe, no início da vida, do parceiro, mais tarde, e finalmente, dos filhos.

O amor é um fenómeno epigenético. Isto quer dizer que os comportamentos sociais, as ligações emocionais e as relações duradouras são mutáveis e adaptativas e isso requer uma biologia igualmente mutável e adaptativa, que lhes dê suporte. Mas mesmo os genes da vasopressina e da oxitocina podem apresentar comportamentos diferentes, em função das circunstâncias externas. Se essas mudanças genéticas ocorrerem em fases precoces da vida, isso pode ter implicações permanentes na forma como vivemos as nossas relações e exprimimos o amor, ao longo da vida.

O amor, por via da oxitocina, também pode influenciar a reacção do organismo às agressões e às lesões. Além disso, a oxitocina tem propriedades anti-inflamatórias e anti-oxidantes. Por conseguinte, viver uma relação amorosa de longo prazo, com bom suporte emocional, pode reduzir a probabilidade de doenças e aumentar o bem-estar em geral.

Por outro lado, os comportamentos e as emoções fortes desencadeados pelo amor deixam-nos vulneráveis. Uma relação amorosa falhada pode ter efeitos devastadores e até ser mortal. Mas também a tecnologia moderna pode contribuir para o nosso isolamento social e colocar-nos em risco, a vários níveis.

Uma vida sem amor é uma vida incompleta. Mas temos ainda muito para aprender sobre o amor e com o amor; e sobre como o amor afecta a nossa saúde e doença.

Está na hora do objecto do dia. Ainda no tema da segurança rodoviária, o objecto do dia de hoje é a cadeira das crianças. Até aos anos sessenta do século XX, já havia cadeiras para crianças, mas tinham por objectivo manter a criança quieta no carro, mas não necessariamente segura. Foi a partir do início da década de sessenta que os fabricantes começaram a levar a segurança mais a sério e criaram as primeiras cadeiras que se colocam viradas para trás. Na década seguinte, um estudo americano demonstrou a enorme mortalidade entre crianças com menos de treze anos, particularmente entre os bebés e as crianças de colo, levando a que fossem progressivamente introduzidas, a partir do final dos anos setenta do século XX, leis que obrigavam as crianças a andar em cadeiras próprias, nos carros. Desde aí, a mortalidade entre as crianças desceu quase oitenta por cento. Apesar deste sucesso, resta uma coisa: saber instalar a cadeira. Um estudo demonstrou que mais de 90 % dos pais instala a cadeira incorrectamente no carro.

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