Por Vasco Gonçalves

Tic tac, tic tac, o mundo está menos desigual?
Tic tac, tic tac, a distribuição da riqueza melhorou?
Tic tac, tic tac, as guerras acabaram?
Tic tac, tic tac, as «Trampas» findaram?
Baseado noutro título que foi muito badalado na década de 90 do século passado, após a queda dos países que experimentaram erguer sociedades socialistas, «O Fim da História», pelo norte-americano de ascendência nipónica Francis Fukuyama. Mas de facto «O Fim da História» foi utilizada pela primeira vez por Hegel, no século XIX. Entre essa primeira data e a segunda, muitas transformações profundas das sociedades ocorreram desde então, o que lança por terra qualquer determinismo histórico. A História é também feita de pequenas histórias quotidianas, de pequenas lutas, assim como «a vida é feita de pequenos nadas», como cantou Sérgio Godinho.
2017 é o ano do Centenário da Revolução de Outubro, que me traz à memória um texto escrito em 2001 a propósito do Encontro Internacional sobre a «Vigencia y actualización del marxismo», que se realizou na Capital do Uruguai. Olho para ele como se fosse o testamento político de Álvaro Cunhal. Exactamente 10 anos após o fim da URSS, o texto chamado «As seis características fundamentais de um partido comunista», faz uma analise concisa do proclamado «Fim da História». Deixo aqui algumas frases:
A falsidade da historiografia oficial, as caluniosas e gigantescas campanhas anticomunistas e o renegar do próprio passado por alguns, tornam necessário aos comunistas lembrar o que foi e significou a revolução russa de 1917 e a construção da União Soviética. Lembrar e justificar a afirmação de que se trata do principal acontecimento histórico do século XX e um dos mais assinaláveis na história da humanidade.
 
Daqui resultou no findar do século XX, uma alteração da correlação de forças que permitiu ao imperialismo lançar uma gigantesca ofensiva visando alcançar o domínio absoluto em todo o planeta.
A ofensiva imperialista actualmente em curso tem, como objectivo declarado e anunciado, a imposição em todo o mundo do domínio absoluto do capitalismo como sistema único, universal e final.

É esse o significado fundamental da teoria da chamada «globalização».

Trata-se do maior perigo e da mais sinistra ameaça que defronta a humanidade em toda a sua história.
 
Na verdade, quando alguém proclama que a História chegou ao fim, percebe-se claramente que é um defensor do pensamento único, do pensamento neoliberal, pessoas que estão desejosas que realmente o seu sistema político fique gravado como se fosse uma escritura sagrada, como se fosse o 11º mandamento.
Mas após o fim da URSS e do países Socialistas, houve uma proclamação por parte dos que estavam do lado Capitalista que a partir daquele dia, com o fim do «Império do Mal» (Pacto de Varsóvia) a  paz universal seria uma realidade, e que a democracia e bem-estar de todos os povos do mundo seriam alcançados.
Mas a realidade é crua e nua e os dados não enganam: O fosso entre ricos e pobres é cada vez maior.
As guerras não diminuíram, pelo contrário alastraram (Iraque, Líbia, Síria, etc). A NATO deixou de ter um inimigo a combater, mas em vez de se dissolver,  pelo contrário alastra os seus contingentes militares a países que fizeram parte do sistema Socialista e que fazem fronteira com a Rússia, numa atitude provocatória sem precedentes. Estranho esta postura, uma vez que, numa visão ocidental/Capitalista deviam ser injustificados, porque não existe um governo Comunista na Rússia. Esta atitude belicista dos EUA, fazem lembrar a crise militar que ficou conhecida pela «Crise dos Misseis» de 1962, em que mais uma vez não se diz toda a verdade, pois os misseis colocados em Cuba pela União Soviética, foi como uma resposta aos misseis que os EUA tinham colocado na Turquia (país que fazia fronteira com a URSS), e que ficaram tão perto, que conseguiam atingir sem grande dificuldade a capital Soviética.
A necessidade de criar ou recriar um novo inimigo para incutir medo às populações, de modo as levar a baixar os braços para permitir que as suas liberdades sejam reduzidas e os seus direitos diminuídos, tudo em troca de uma pretensa segurança, escondendo que o objectivo principal é outro, é  o controlar todos aqueles que  possam fazer frente aos desígnios dos neoliberais. E a religião, mais uma vez a servir de pretexto para alimentar guerras regionais para que governos que não alinhem com o polícia do mundo, os EUA, sejam destituídos, afastados ou até destruídos (caso seja necessário pela força das armas).
E qual o papel da União Europeia nisto tudo? Na verdade o seu DNA sempre transportou a lógica das grandes Economias Capitalistas contra as pequenas. Isso começou a ser muito mais visível após a fim da URSS, porque deixou de ser preciso fingir ou fazer-de-conta. Houve só um partido que chamou à atenção de que a adesão iria trazer graves problemas para Portugal e para a sua frágil economia. Na altura muitos engravatados, tanto em fatos como nas ideias, riram-se e gozaram com quem lhe chamava à atenção. Baseando-se numa análise Marxista da situação e não porque foram a algum vidente/Zandinga! Mas hoje? Embora não dêem publicamente o crédito ao partido que analisou a situação económica e avisou o país, não deixa de ser interessante ver cada vez mais gente, de quadrantes políticos dos mais variados, a pôr em causa os objectivos da UE e da sua moeda, a Moeda Única.
O capitalismo sempre sobe jogar bem, mas será o capitalismo o vencedor da história?
Enquanto houver injustiças sociais, e enquanto os trabalhadores não passarem a ser os sujeitos da História (que também é feita de pequenas histórias, de pequenas lutas) a luta por um mundo melhor, para todos, não parará nunca!
Mesmo com revezes e retrocessos o balanço geral tem sido positivo para os trabalhadores na conquista de direitos e no aprofundamento das várias vertentes da democracia. Sim, porque a democracia não se esgota só na democracia política, não se pode nunca dissociar (infelizmente os Neoliberais e os ditos sociais-democratas fazem-no muito),  das outras 3 vertentes que devem ser sempre inseparáveis: a democracia económica, social e cultural.
Por vezes dão-se dois passos atrás, para se poder dar um em frente.

Termino com uma frase de que gosto muito e pela qual me pauto no dia-a-dia. Frase dita por Bento de Jesus Caraça que foi um matemático português, professor universitário, resistente antifascista e militante do Partido Comunista Português:

Se não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo.
Tic tac, tic tac, mais um dia que passou!
Tic tac, tic tac, mais uma oportunidade que se desperdiçou!?
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