Por Carlos Lima ( c/Jéssica Resende )

Carlos Lima – Olá Jéssica. É verdade que mesmo vivendo numa sociedade dita moderna e evoluída,a sexualidade ainda é considerada um tema tabu, principalmente quando associada às pessoas idosas?

Jéssica Resende –Olá Carlos. De facto, para a sociedade em geral, a pessoa idosa é vista como um ser assexuado, ou seja, desprovido de sexualidade, não sendo encarada como uma parte importante e significativa do dia-a-dia destas pessoas. A pessoa idosa que procura alcançar uma satisfação sexual, é também frequentemente caracterizada como sendo perversa ou repugnante. Em geral, a sexualidade é também associada à juventude, à saúde e a corpos sadios, sendo as pessoas idosas vistas como menos capazes de se envolverem num relacionamento, uma vez que são retratadas de forma negativa, como seres pouco atraentes e que já não têm direito ao romantismo.

Carlos Lima – Pensas que essa ideia será isto um mito ou um facto?

Jéssica Resende – A verdade é que a maioria das pessoas tem potencial para se manter sexualmente activa durante a velhice, sendo atribuído um papel fundamental à sexualidade para um estado de bem-estar geral, em qualquer faixa etária, contribuindo para a qualidade de vida dos indivíduos. Segundo a OMS, sexualidade é «uma energia que motiva para procurar o amor, contacto, ternura e intimidade; integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser-se sensual e sexual. A sexualidade influencia pensamentos e, por isso, influencia também a saúde física e mental». Deste modo, engloba companheirismo, actividade, comportamento, atitudes e função sexual, sendo que os casais desenvolvem padrões e regras de intimidade que definem os comportamentos aceitáveis no seu relacionamento.

Carlos Lima – Sendo assim, será que perdemos tudo isto porque simplesmente envelhecemos? Há evidências que demonstrem o contrário?

Jéssica Resende – Vários estudos demonstram que as pessoas idosas se interessam pela sua vida sexual e que se mantêm sexualmente activas nesta fase da vida, embora se verifiquem alterações na sua vida sexual como a diminuição do interesse e desejo sexuais, bem como da frequência de relações sexuais. O seu desenvolvimento e expressão são influenciados por factores sociais, culturais, fisiológicos, biológicos e psicológicos, sendo que o desenvolvimento sexual ocorre durante toda a vida, sofrendo várias alterações que não têm de estar intrinsecamente relacionadas com a idade.

Carlos Lima – Essas alterações podem ser devidas a quê?

Jéssica Resende -A vários factores como o estado de saúde, a qualidade da relação conjugal e sexual desenvolvida ao longo da vida, à privacidade e oportunidades que geralmente aumentam à medida que envelhecemos com a chegada da reforma e a saída dos filhos de casa dos pais, a forma como a sociedade encara esta temática e os próprios papeis sociais que a pessoa idosa representa. Ou seja, não nos tornamos seres assexuados porque simplesmente envelhecemos e a pessoa idosa pode desfrutar da sua vida sexual, moldando o seu comportamento sexual à sua situação actual.

Carlos Lima –O que tem sido feito nos últimos anos para alterar esse quadro?

Jéssica Resende – Efectivamente, pouco tem sido feito no que diz respeito à saúde sexual na velhice e a maioria das medidas públicas implementadas são orientadas para uma população mais jovem, uma vez que a sexualidade nos mais velhos é considerada irrelevante na vida dos mesmos, sendo isto algo que acontece no meio institucional, ao qual existe cada vez maior afluência, necessitando também de novas políticas para aceitação da sexualidade dos mais velhos.

Carlos Lima – Dá exemplos concretos…

Jéssica Resende – Por exemplo, em muitas instituições para idosos, os casais de idosos estão proibidos de partilhar o mesmo quarto, sendo isto um atentado à sua intimidade, liberdade, privacidade e vida sexual.

Carlos Lima – Para concluir

Jéssica Resende -O principal obstáculo para uma vida sexual plena está nas ideias preconcebidas da sociedade, que se tornam particularmente significativas no que diz respeito à população idosa, levando a uma falsa ideia de que a sexualidade desaparece com o passar dos anos.

Carlos Lima – Obrigado Jéssica

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