Por Gustavo Martins-Coelho


 

Chegou-me anteontem às mãos um texto do i (que raio de nome para um jornal!), intitulado «Schäuble lança farpa a Portugal» [1]. Fiquei curioso em saber que tinha, desta feita, dito o ministerial indivíduo — e abri o artigo. Pelo título, parecera-me tratar-se duma notícia, pelo que esperava ver a narração de factos (embora cada vez haja menos disso nas notícias) [2]. O chapéu — «Ministro das Finanças alemão alerta o governo para garantir que não é necessário um segundo resgaste [sic]. É o terceiro aviso solene» — dava a mesma impressão (e dava a impressão de que ninguém no i revê o que se escreve, antes de publicar, mas isso agora não vem ao caso).

Porém, depois, o texto da suposta notícia que se seguia ao título e ao chapéu dizia coisas tão notáveis como: «tudo o que contradiz o Governo e o Presidente da República é muito mal recebido e mesmo alvo de fortes críticas»; e «Portugal só está à tona de água porque tem a mão do BCE bem por baixo» — coisas que me parecem formulações muito pouco próprias dum texto noticioso.

O autor do texto, um tal António Ribeiro Ferreira, diz ser redactor principal do i na página do seu perfil no sítio do jornal [3], mas tem escrita, por baixo do seu nome nessa mesma página, a palavra «opinião», pelo que se supõe que, afinal, o texto que eu li não era uma notícia, mas antes um artigo de opinião, assinado pelo redactorial senhor.

Contudo, se prosseguirmos a descida na página do senhor no sítio do i, encontramos um separador «Noticias [sic] relacionadas» e, descendo, vemos um ror de textos do mesmo nível daquele cuja referência iniciou este meu artigo.

Em suma, fica a dúvida: é uma notícia (ou talvez uma «noticia», a fazer fé no singular acordo ortográfico em vigor na sede do i) ou é um artigo de opinião? Como notícia, é parcial (leia-se, novamente, o segundo parágrafo deste texto, para perceber porquê), inútil (não cita, sequer, as declarações exactas do ministro alemão, para podermos compreender o que está em causa na opinião do senhor) e formalmente inadequada. Como artigo de opinião, é, pura e simplesmente, pobre — do mais rasteiro nível de taxismo a que o Correio da Manhã nos habituou e que parece alastrar como mancha de óleo por toda a imprensa (o que talvez se explique, neste caso, pelo facto do redactor principal que o assina ter exercido, em tempos, o mesmo cargo nessoutro pasquim). Exprime opiniões sem as fundamentar em factos concretos, faz alusões gerais sem explicar ao que se refere e denota apenas uma coisa: um ódio pessoal, mesquinho e implacável a tudo o que não perfilhe a sua cartilha ideológica. Ódio, porque sim — e mais nada.

Enfim, é lixo.

Anúncios