Por Gustavo Martins-Coelho

De vez em quando, encontro um estudo científico que me surpreende. Por exemplo, o estudo do papel da acupunctura na boca seca [1]. Pelo visto, houve alguém que achou que seria boa ideia espetar agulhas para fazer passar a sensação de boca seca, que acontece em consequência de doença ou como efeito secundário da toma de certos medicamentos ou da realização de radioterapia para cancros localizados na cabeça ou no pescoço. Como seria de esperar, os estudos sobre o assunto mostraram que a acupunctura não consegue um desempenho melhor do que um placebo [2].

Outro estudo da mesma área é sobre a glossodinia, ou seja, a sensação de ter a boca, em particular a língua, a arder. A mim, por exemplo, acontece quando como cebola crua. Mas adiante! Também houve alguém que achou que a acupunctura poderia ajudar a reduzir essa sensação de ardor na boca e o melhor de tudo é que os nove estudos sobre o assunto demonstraram que sim [3]! O problema: nenhum dos estudos passa no teste da qualidade, ou seja, foram mal feitos, com possibilidade de ter influenciado os resultados; e todos eles foram feitos na China, onde já sabemos que a acupunctura tem mais tendência para funcionar [4, 5]

Antes de terminar, quero acrescentar uma coisa. Duas crónicas atrás [6], afirmei que «a acupunctura reduz a frequência e intensidade dos fogachos», mas, entretanto, dei-me conta de que me esqueci de referir um pormenor: o efeito atribuído à acupunctura é inferior ao efeito da terapia de substituição hormonal, pelo que esta deve continuar a ser a primeira escolha [7].

Ainda outra área, pelo menos, inesperada: soluços! Há estudos sobre o tema, mas não há tratamento, nem na medicina convencional, nem na acupunctura [8].

A acupressão foi também testada no glaucoma — sem sucesso [9].

E assim termina esta série de crónicas sobre a acupunctura [10]. Como nota final, quero apenas salientar que espero que tenha ficado claro que, globalmente, a acupunctura não conseguiu, até à presente data, demonstrar inequivocamente a sua utilidade. Os estudos credíveis apontam invariavelmente no sentido de que a acupunctura não funciona; e aqueles estudos que validam a sua prática são, em geral, de fabrico chinês e qualidade científica duvidosa.

É tempo agora de falar do objecto do dia. Ainda no capítulo da segurança rodoviária, já pensou que o sinal de limite de velocidade é um factor de saúde? Aposto que não; mas vou explicar porquê!

Começo por dizer que, em 1861, o Reino Unido colocou o primeiro sinal de limite de velocidade, para reduzir a condução agressiva das carruagens puxadas por cavalos… Mas hoje em dia, apesar dos limites de velocidade, é o seu excesso que continua a ser o culpado da maioria das colisões. Por exemplo, um estudo publicado no American Journal of Public Health [Revista Americana de Saúde Pública] em 2009 descobriu que a anulação dos limites de velocidade federais em 1995, nos EUA, conduziu a um aumento de 3,2% nas mortes na estrada. O aumento dos limites de velocidade causado por essa alteração legal provocou, ao longo de dez anos, mais cerca de 12.000 mortes e mais de 36.000 ferimentos.

Por aqui se vê, então, a importância para a saúde do sinal de limite de velocidade. Sabemos que aumentar a velocidade eleva a probabilidade duma colisão e a gravidade dessa mesma colisão, quando ela acontece. Concretamente, os estudos apontam no sentido de que aumentar a velocidade média em 5% aumenta a probabilidade de colisão com ferimentos em 10% e de colisão com morte em 20%. No caso dos peões, se forem atropelados por um carro a 30 km/h, têm uma probabilidade de sobreviver de 90%, enquanto que, se o atropelamento acontecer a 45 km/h, a probabilidade de sobrevivência do peão desce para menos de 50%. Compreende-se agora por que é que nas cidades é proibido andar a mais de 50 km/h.

Além disso, a diminuição da velocidade não reduz só os ferimentos e as mortes na estrada; também contribui para a diminuição da poluição, diminuindo, por essa via, os problemas respiratórios das pessoas. Portanto, da próxima vez que vir um sinal de limite de velocidade, cumpra-o, pela sua saúde!

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