Por Carlos Lima

É curioso quando ao fim de tantos anos de vida ainda somos surpreendidos pela realidade. Movidos pela curiosidade, sentimos uma força interior que nos motiva na busca livre e descomprometida de novos saberes. É impressionante a facilidade com que algumas pessoas conseguem dar sentido, de uma forma simples, ao que já pensamos há muito mas não conseguimos demonstrar para os outros.

Gosto quando frequento um congresso, uma acção de formação, ou quando faço uma simples partilha de experiências e sou surpreendido. Surpreendido por um conjunto de saberes simples, mas que se encontram com o que penso ou que colocam tudo em causa, porque quer uma quer outra situação me fazem trabalhar mais, pesquisar mais e dão aquele empurrão que às vezes é preciso para se continuar a aprender, para ter vontade de aprender e para aproveitar melhor a vida.

Durante alguns dias frequentei um congresso sobre futebol, porque gosto de futebol, porque sou treinador e porque preciso de créditos para renovar o meu título de treinador. Apesar da qualidade dos intervenientes, ou se calhar por isso mesmo, acreditei ser um congresso de generalidades, pelo que as expectativas eram baixas. Muitas das apresentações foram isso mesmo, mas de entre as que gostei, houve duas que me tocaram particularmente pela positiva e que se relacionam com a aprendizagem.

Fui surpreendido, o mundo do futebol, e isso eu já sabia, mexe em muitas áreas do saber, da aprendizagem e da medicina. Sem querer cometer nenhuma imprudência de simplificação, fui surpreendido por uma apresentação que falava da importância da não correcção da pessoa que aprende, em particular da criança. Por exemplo, quando a criança remata, se a corrigirmos, ela vai centrar a sua energia no que que lhe estamos a pedir e não em corrigir de forma natural aquilo que a conduziu ao fracasso, quando o que queremos é que ela integre o que a conduziu ao sucesso, porque sabe como fez, ou seja, faz essas correcções ajustadas às suas próprias vivências. Se a corrigirmos, até pode executar duas ou três vezes melhor, mas ao fim de duas, três semanas o que aprendeu desapareceu por completo ou em grande parte. O importante para nós e para a criança é que tenha sucesso, se o fizer com naturalidade, então encantados. Esta metodologia de aprendizagem é para o futebol, é para a escolha e para todos os contextos, mas não confundir com falta de orientação.

Outra palestra que me surpreendeu, relacionou-se com os neuroestimuladores cerebrais. Criados para detectar e prevenir as crises epiléticas e que têm mostrado muita utilidade noutras áreas da medicina como é o caso da doença de Parkinson em que ajuda no controle dos tremores e coordenação motora, mas também mostraram grande utilidade na preparação do atleta para o treino, pois melhoram a aprendizagem e o desempenho, ou seja, a aplicação de estímulos eléctricos adequados em determinadas zonas do cérebro, durante uns minutos, e cerca de vinte minutos antes do treino, permite melhorar significativamente os desempenhos e a aprendizagem, porque melhora a capacidade de concentração e a disponibilidade muscular.

Talvez já todos nós tivéssemos consciência disto, mas quando as coisas são demonstradas de forma prática e simples, temos mais facilidade em integrar. É verdade que ficamos com a sensação que sempre soubemos isto, só não sabíamos como dizê-lo ou demonstra-lo, porque afinal é tudo tão lógico e intuitivo.

São estas coisas simples que demonstram o que já sabemos, pois é o que sabemos que torna fácil o seu entendimento. Que demonstram a nossa capacidade de dar sentido às coisas que há muito procurávamos, mas também são estas coisas simples que nos colocam na interrogação permanente e essa interrogação permanente é que nos disponibiliza para aprender a aprender, independentemente da idade.

Saúde

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