Por Gustavo Martins-Coelho

Depois da acupunctura [1], chegou a vez de falarmos da medicina antroposófica. Esta corrente é um desenvolvimento da antroposofia, juntamente com a pedagogia Waldorf e a agricultura biodinâmica. Sobre pedagogia e agricultura, não vou falar, porque sei muito pouco. Mas sobre medicina antroposófica posso falar um bocadinho; ou melhor, posso lançar a perspectiva do método científico sobre ela.

A medicina antroposófica é apresentada pelos seus praticantes como um sistema integrado de cura, que funciona não em alternativa à medicina científica, mas antes como uma expansão da mesma, ligando os processos espirituais, a alma e a fisiologia aos processos de doença e da sua cura, e estabelecendo pontes entre alopatia, naturopatia, homeopatia e nutrição, entre outras [2].

Sobre naturopatia, homeopatia e outras práticas de ervanárias e afins, falarei em tempo próprio. Hoje, vou debruçar-me essencialmente sobre o conceito de ligação entre corpo, mente e espírito que a medicina antroposófica pretende difundir. Este conceito é particularmente popular na Europa e, sendo sobretudo filosófico, não é propriamente passível de avaliação científica [3]; mas as práticas que lhe estão subordinadas são-no e há vários estudos, que utilizaram métodos diversos e apresentam resultados predominantemente positivos, mas são, pela sua qualidade — ou mais pela falta dela —, insuficientes para afirmar com segurança se, para as doenças analisadas, os resultados observados são de confiança [4]. Por outras palavras: a eficácia das técnicas da medicina antroposófica — e mesmo o seu conceito global — não foram provados cientificamente, e a sua segurança pode ser questionável, dependendo do tipo de exercícios que são pedidos aos doentes [5]. É por isso legítimo duvidar da sua utilidade.

Porém, uma coisa é certa: os doentes que a experimentam referem sentir-se melhor, no final dos tratamentos, mais ou menos na mesma proporção dos doentes tratados, para a mesma doença, pela medicina científica [6]. Na minha opinião, essa melhoria subjectiva do estado de saúde está mais relacionada com a valorização pessoal e com uma visão mais optimista da vida, por parte do doente, após a intervenção antroposófica, do que com melhorias propriamente ditas no estado clínico — o que, note-se, não é necessariamente mau: por alguma razão se diz que rir é o melhor remédio!

Uma das armas terapêuticas da medicina antroposófica é a chamada euritmia, que pode ser descrita como uma terapia do movimento, em que os movimentos que fazemos para falar quotidianamente são transpostos para exercícios, que permitem ao doente expressar a sua alma e fortalecer os seus recursos salutogénicos. Os estudos sobre a euritmia, apesar das suas limitações metodológicas, justificam para já a continuação dessa linha de investigação, encarando essa técnica como um complemento potencialmente relevante do tratamento médico [7].

Finalmente, é tempo do objecto do dia; hoje, a ambulância. A ideia de transporte urgente de doentes é antiga, mas só há cerca de meio século é que o conceito de ambulância que hoje conhecemos foi desenvolvido. Até lá, muitas entidades privadas, incluindo os agentes funerários, prestavam esse serviço, sem garantia de cumprimento de padrões mínimos de equipamento, cuidado ou pessoal.

As ambulâncias, hoje em dia, actuam no cruzamento entre os cuidados de saúde, a saúde pública e a segurança; e o seu serviço é tão relevante que até já se expandiu para o ar, através dos helicópteros que prestam serviço de transporte rápido de doentes, quando necessário.

Contudo, esta realidade é restrita aos países mais ricos. Em grande parte do mundo, as ambulâncias rareiam. No auge da crise do ébola [8], por exemplo, houve notícia de que apenas uma dúzia de ambulâncias serviam todo o território da Libéria e a sua população de quatro milhões de habitantes.

É por isso que têm sido lançadas campanhas para expandir o número de ambulâncias em muitos países. Esse esforço resulta. Por exemplo, no estado indiano de Tamil Nadu foi lançado um serviço gratuito de ambulâncias em 2008, ao qual se atribui a redução da mortalidade infantil em um terço e também ter permitido salvar 120.000 vidas de vítimas de acidentes rodoviários.

Anúncios