Por Carlos Lima

«Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.»

António Gedeão

 

É a segunda vez que passo em frente a um infantário, onde vejo miúdos dos seus quatro, cinco anos (não sei bem) a ensaiar o triplo salto. Isto acontece desde que o Nelson Évora e a Patrícia Mamona tiveram comportamento de excelência nos Europeu de pista coberta.

Confesso que no primeiro momento me pareceu, mas como não tive a certeza, não escrevi. No segundo momento, os movimentos já estavam muito bem definidos e por isso não tive dúvidas. Era mesmo o triplo salto, com tudo, menos o salto final, em pleno, porque não existia caixa de areia.

O que me chamou mais à atenção, foi o facto do atleta mais evoluído já ter atingido, para um movimento complexo, um nível elevado de execução e perfeição, para além de ter a preocupação de explicar aos pares o movimento.

Fiquei maravilhado, porque é um exemplo típico de como o sucesso de uns motiva outros. Neste caso o Nelson e a Mamona ganharam adeptos e atletas para a modalidade. Podem estas crianças nunca vir a praticar o triplo salto de forma competitiva, mas o bichinho chegou lá.

Não perguntei às crianças o motivo desse interesse pelo triplo salto, mas a proximidade com o campeonato da Europa de pista coberta e o sucesso dos nossos atletas pareceu-me suficiente e penso que não é preciso mais.

Hoje estou no FootballTalks [1], onde vejo uma «feira de vaidades» sobre a vitória de Portugal no Europeu de Futebol de 2016, mas espero que não esqueçam quem mais fez pela modalidade ou longo dos anos e que permite que os atletas atinjam o nível que hoje têm, porque este chegar ao sucesso vem de muito longe, com um esforço de muita gente, entre os quais estão, acredito, os que aqui estão a colher os méritos.

Vem de longe, muito antes de termos conquistado Riade e Lisboa, mas esses marcos foram importantes e a sequência dada, a continuidade dos projectos dos clubes e das selecções é muito motivador.

Pela mesma razão que hoje falo dos miúdos que querem ser os «triplistas» do futuro, vejo 66, 84, 89, 91 e 2004 como datas marcantes para criar a marca que a Federação Portuguesa de Futebol tanto defendeu e fez muito bem.

Não quero deixar de falar do outro aspecto que os atletas de grande dimensão têm sobre a sociedade, porque eles são um exemplo para todos. Se forem um bom exemplo todos ficamos a ganhar, se forem um mau exemplo todos ficamos a perder.

As questões da arbitragem no futebol português são disso um exemplo negativo. Quem manda calar os que atrás dos interesses pessoais e clubísticos geram polémica e questionam inoportuna e incorrectamente as arbitragens e geram violência física e verbal sobre os árbitros.

Como sabem sou treinador e sinto que mesmo no futebol de miúdos de onze/doze anos há gente a ser absolutamente inoportuna e mal-educada, a pressionar os árbitros, muitos deles a precisar de paz para crescerem na sua capacidade de tomar decisões, porque também estão a aprender a ser árbitros e muitas das vezes são acusados por decisões que a meu ver são perfeitamente correctas, mas que os espectadores discordam porque não conhecem as leis do jogo.

Seja como for:  Obrigado Nelson, obrigado Patrícia, obrigado Selecção de futebol e de tudo que possa servir de bom exemplo para os nossos jovens e que os ajudem a acreditar no sonho, porque esse motiva muito, e faz com que tudo pareça fácil.

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