Por Carlos Lima ( c/Daniela Martins e Jéssica Resende)

Aquilo que as pessoas são, como se relacionam, como se vêem e como são vistas por outras pessoas, passa em grande parte pelo seu trabalho. Por esta razão, a passagem para a reforma é um momento de mudança que implica reorganizações importantes na rotina e na vida das pessoas, fazendo com que se coloquem questões como:

  1. O que me espera na reforma?
  2. De que formas posso manter-me ativo?
  3. Como me organizar para viver bem este período?

Não existe uma delimitação cronológica associada ao início do envelhecimento, mas a passagem à reforma é sem dúvida um acontecimento amplamente associado a esta fase da vida «Neto, 2010».

A passagem à reforma é responsável por um processo de adaptação à mudança, sendo uma fase muitas vezes não só percepcionada pelos indivíduos, mas também pelos seus familiares ou outras pessoas que se encontrem próximas de si «Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015». Na verdade, o individuo deixa de se deparar com alguns constrangimentos externos advindos da sua participação no mundo laboral, tendo autonomia para a organização e gestão do seu quotidiano e para escolher as actividades que podem conferir algum sentido para si próprio «Cunha, 2014». A entrada na reforma é percepcionada de forma diferente, dependendo das condições materiais, relacionais e culturais dos indivíduos. De facto, o modo de vida dos reformados é marcado pela heterogeneidade das suas condutas, uma vez que estas derivam do nível e da natureza dos seus recursos «Neto, 2010».

A passagem ao estatuto de aposentado é maioritariamente percebida como uma fase do ciclo vital para ser vivida de uma forma mais calma e desfrutando de uma pensão de reforma para a qual foram descontando ao longo da sua vida contributiva «Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015». Muitas pessoas desejam o seu ingresso nesta nova etapa, por acreditarem que poderão fazer aquilo que sempre desejaram, mas que, por falta de disponibilidade de tempo ainda não tinham tido oportunidade. Esta fase acarreta uma nova experiência uma vez que não temos quem nos diga o que fazer e como o fazer «Neto, 2010».

Apesar disto, existe muitas vezes também um sentimento de ambivalência, uma vez que em muitos dos casos os intervenientes sentem que tanto têm ganhos, como a melhoria do estado de saúde e um maior dispêndio de tempo para si próprios, mas também perdas, tais como maior percepção dos sinais e sintomas do processo de senescência, solidão e isolamento «(Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015».

Para facilitar o processo de adaptação a esta nova fase do ciclo de vida, existem alguns recursos e estratégias facilitadoras, tais como «(Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015»:

  • Recursos informais: prática de actividades realizadas no domicílio, prática de determinados hobbies como coleccionismo, pesca, música, artesanato, escrita, leitura, exercício físico; continuidade de actividades extra laborais que já anteriormente, em contexto de vida activa, faziam parte da sua vivência;
  • Recursos formais: procura autónoma de actividades facultadas por entidades formativas, no sentido de dar continuidade da aprendizagem ao longo da vida;
  • Recursos familiares: cuidar dos netos, estreitamento da relação com os filhos e companheirismo do cônjuge;
  • Recursos sociocomunitários: os amigos, vizinhos, voluntariado e as colectividades e associações.

Em Portugal, o expressivo aumento de reformas antecipadas a que se tem vindo a assistir nos últimos anos e, a par deste fenómeno, a inexistência de programas de intervenção direccionados para indivíduos, casais e famílias que vivenciam esta transição, fazem com que exista um quadro de vulnerabilidade que assume uma das prioridades de intervenção em saúde comunitária «Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015».

Deste modo, é imperativa a procura de orientações que permitam intervir nesta fase do ciclo vital por forma a promover o tão desejado processo de envelhecimento activo, saudável ou bem-sucedido «(Camarneiro, Superior, Maria, Cruz, & Escola, 2015».

Sonhar é importante, mas tentar concretizar aquilo que se deseja é melhor ainda «Neto, 2010».

Saúde!

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