Por Sara Teotónio Dinis

Na amálgama do corrupio diário que se verifica nos espaços públicos dedicados aos cuidados de saúde movimentam-se os doentes (utentes) – principais actores do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – e os médicos.

Os encontros de ambos têm um guião definido pela necessidade básica de se ter Saúde. Nos contactos imediatos entre doentes e médicos, constrói-se a missão comum daquela ida programada à consulta, ou daquela ida inesperada às urgências: o doente quer ver resolvido o seu problema, com eficácia e eficiência, à luz das suas expectativas; o médico quer resolver o problema do doente, mas também prevenir o outro cujo prenúncio já descortinou, à luz da sua sabedoria. Concretiza-se a Acessibilidade. Acontece o Acto Médico.

Ambos os actores são enervados pelo fio do Tempo. São aqueles os 15 minutos por que o doente esperava há mês e meio. São aqueles os 5 minutos que o médico tem para perceber o que fazer àquela pessoa que ficou súbita e gravemente doente. É o tempo em que os olhos se cruzam, as palavras se trocam e as vontades se confrontam.

De sobeja importância, o Tempo está, hoje, cada vez mais curto e veloz. Com mais utentes por médico de família, com listas de espera hospitalares ainda consideráveis, com hardware informático desajustado à complexidade do software incutido, o Tempo encurrala quem dele necessita, pois que se não é possível multiplicá-lo, e querendo manter a Acessibilidade, há que o conseguir dividir.

Acelerada a comunicação, diminui a sua qualidade, deteriora-se a relação médico-doente, e aumenta a probabilidade do erro. Cresce a frustração do doente, que tem sempre mais que um assunto por consulta e não entende o motivo real do despacho, e cresce a ansiedade do médico, que vê sistematicamente a jornada diária prolongada, o regresso à família adiado, e a justa compensação congelada.

A equação não se adivinha fácil, pois que todas as parcelas têm um inimigo comum – o Dinheiro. Elevado ao expoente máximo, coloca todos entre parêntesis. A abrangência da sua sombra engloba diversos aspectos: a necessidade real de médicos no país; as regras para emissão de pedidos de exames complementares de diagnóstico nos hospitais e nos cuidados de saúde primários, que penalizam os doentes com deslocações redundantes aos hospitais; as regras para a emissão de certificados de incapacidade temporária nas urgências, que penalizam os doentes por duplicação de taxas moderadoras; a desigualdade de sistemas remuneratórios dentro do próprio SNS; a escassez e/ou danos de recursos materiais; as horas extraordinárias não pagas realizadas sistematicamente pelos médicos para manter vivo o SNS.

O doente quer ter acesso aos cuidados de saúde, e o médico quer garantir a sua prestação. A reunião das condições necessárias e a operacionalização deste processo dinâmico, em tempo útil, não é mais do que a Acessibilidade, esse desejo de quem construiu o SNS. Estará ela assegurada?

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