Por Carlos Lima


Todos nos interrogamos se não existem pessoas com apetência para os comportamentos aditivos. Durante muito tempo, tudo era explicado pelos contextos, só que muita gente partilhava os mesmos contextos e uns consumiam e outros não. Depois vieram as justificações psicológicas o que individualizava o problema, mas ainda assim, as justificações individuais, não esclareciam a importância que o grupo desempenhava para que cada individuo assumisse esses comportamentos. Depois vieram as justificações neurológicas associadas ao baixo nível de algumas substâncias cerebrais e neurotransmissores e por fim chegou-se à multidimensionalidade do problema, em que todos os factores contam para que um individuo assuma comportamentos aditivos.

As atitudes de combate passavam por reduzir a disponibilidade das substâncias psicoactivas consideradas ilegais, mas deixando ficar outras consideradas legais, como é o caso do álcool. Esta perspectiva ignorava os efeitos sociais associados e a pessoa em si.

Mas o que são afinal os comportamentos aditivos? Segundo o Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020, comportamentos aditivos «são comportamentos com características impulsivas-compulsivas em relação a diferentes actividades ou condutas, como por exemplo: substâncias psicoactivas, jogo, internet, sexo, compras, etc., envolvendo também um potencial de prazer. A continuidade e a perseverança deste tipo de comportamento, coexistindo com outros factores neurobiológicos, psicológicos, genéticos e ambientais, poderá evoluir para dependência.» [1]. Esta definição retira o foco do consumo de substância e acrescenta outros enquadramentos, como o jogo no qual muita gente está envolvida e no qual muita gente gasta o que tem e o que não tem, criando dívidas de difícil gestão, sem que consiga deixar de apostar. A internet acessível, as tecnologias móveis, as apostas online vieram facilitar ainda mais.

De entre as substâncias psicoactivas, a mais consumidas é o álcool. Em grande parte aceite pela sociedade, levantou problemas devido aos consumos excessivos de gente cada vez mais jovem, chegando mesmo à embriaguez em jovens de 13/14 anos. Nesta fase o cérebro ainda não está totalmente desenvolvido e os danos, não só são maiores como em muitos casos irreversíveis.

No adulto, junta-se a questão da condução sob o efeito de substâncias psicoactivas, com uma redução significativa da capacidade de concentração, grande redução da visão periférica com um aumento exponencial do risco de acidente e acidentes progressivamente mais graves, ao ponto de a condução sob o efeito de substancias psicoactivas, de entre as quais se encontra o álcool, ser um problema de saúde publica, que exigiu e exige medidas excepcionais para o seu controle.

Atendendo ao facto de todos estarmos envolvidos nos fenómenos do consumo de substâncias psicoactivas é importante aumentar a consciência individual e social dos riscos dos consumos. A pessoa que está mais ciente do risco tem menos probabilidade de o assumir. A pressão social sobre os consumos é importante, mas é, acima de tudo, ter respeito pelo ser que se é e pelos outros. Quando se vive em sociedade, não se consome sozinho e os estudos demonstram que os efeitos nocivos do consumo de substâncias psicoactivas são devastadores, para quem consome, para a família e para a sociedade.

Este problema existe, é da responsabilidade de todos, não adianta querer «tapar o sol com a peneira».

Saúde

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