Por Gustavo Martins-Coelho

Tal como prometido na última crónica [1], hoje falaremos um pouco de saúde holística. O conceito, per se, faz sentido: a saúde holística diz respeito ao entendimento de que cada ser humano funciona como uma unidade integrada, completa, e não como a soma das suas partes [2], pelo que deve ser observado nas suas dimensões fisiológica, sociológica, psicológica, económica e espiritual [3]. Isto parece-me um axioma — uma proposição tão evidente que não precisa ser demonstrada; contudo, a medicina científica parece tê-lo esquecido, enquanto a maior personalização individual das medicinas pré-científicas, bem como a maior autonomia concedida ao doente e uma postura menos paternalista por parte do praticante dessas medicinas, são talvez um dos factores que explica o seu sucesso actual [4, 5], particularmente entre as mulheres [6], apesar da sua falta de fundamento científico.

Por exemplo, do ponto de vista da saúde holística, um doente que se queixe de dores de cabeça deverá não só tomar a medicação para as combater, mas também tentar perceber o que, no seu dia-a-dia, está na génese dessas dores de cabeça e fazer por alterar esses factores. Pode ser falta de horas de sono [7], ou pode ser excesso de estresse no trabalho, ou pode ser outra coisa qualquer; mas, seja o que for, é importante que se corrija esse problema subjacente e não se limite a prescrever medicamentos para paliar o sintoma.

A saúde pública é a abordagem holística por excelência, cabendo-lhe o papel de estabelecer as pontes entre a medicina e o estudo antropológico dos hábitos, dos meios e das condições de vida que colocam a saúde das pessoas em risco, de modo a desenhar as políticas públicas de promoção da saúde e os programas de prevenção da doença e protecção da saúde da população [8]. Aliás, a saúde holística é a abordagem adequada à ideia e às práticas de promoção da saúde, estando ligada ao conceito de salutogénese [9], desenvolvido pelo sociólogo americano Aaron Antonovsky e do qual havemos de falar aqui em mais detalhe. Relativamente à promoção da saúde, o seu objectivo «permitir às pessoas controlar a sua saúde e os seus determinantes, dando a cada indivíduo as oportunidades e os recursos para atingir o seu pleno potencial de saúde [10]» portanto, o objectivo da promoção da saúde concretiza-se, antes de mais, não limitando a visão da saúde à promoção do bem-estar e de estilos de vida saudáveis, mas olhando para as condições sociais, económicas e ambientais que determinam a saúde: paz, habitação, educação, segurança social, relações sociais, alimentação, rendimento, direitos das mulheres, ecossistema, uso sustentável dos recursos, justiça social, respeito pelos direitos humanos e equidade [10]. Mais holístico do que isto, é impossível!

Passando agora ao objecto do dia, na última crónica [1], a propósito do camião do lixo, chamei a atenção para o défice de reciclagem que existe em Portugal. A reciclagem depende, contudo, da recolha selectiva, ou seja, da separação do lixo que produzimos consoante o tipo e o aproveitamento que dele pode ser feito e essa recolha selectiva é feita através dos ecopontos, que são, hoje, o objecto do dia.

A reciclagem tem vários benefícios, nomeadamente a redução da necessidade de espaço nos aterros, pois o que lixo que aí ficaria depositado, em decomposição, passa a ser matéria-prima para a indústria transformadora, ou combustível nas centrais de co-incineração e co-geração. Ou seja, traz também benefícios em termos de poupança dos recursos naturais, pois, ao reciclar papel, plástico e vidro, necessitamos de menos árvores, petróleo e areia, respectivamente. E traz benefícios energéticos, reduzindo a necessidade de combustíveis fósseis. Além disto tudo, a reciclagem ainda é boa para o ambiente, reduzindo a produção de gases com efeito de estufa, nomeadamente o dióxido de carbono, e, por essa via, o aquecimento global, que tem implicações sérias na saúde das pessoas.

E, no entanto, ainda falta fazer muito em Portugal, para chegarmos ao nível ideal de recolha selectiva e de reciclagem.

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