Por Gustavo Martins-Coelho

Da última vez [1], introduzi o tema da saúde holística e expliquei que esta filosofia consiste na ideia de que cada ser humano funciona como uma unidade integrada, completa, e não como a soma das suas partes, pelo que deve ser observado nas suas dimensões fisiológica, sociológica, psicológica, económica e espiritual; e disse também que essa é a abordagem da saúde pública enquanto especialidade baseada na promoção da saúde.

Mas na saúde holística cabe também a ideia dos cuidados de saúde centrados no doente e da integração de cuidados entre médico de família e médicos hospitalares [2], de modo a tornar todo o percurso do doente o mais fácil e intuitivo possível. Cabe ainda o respeito pelas convicções religiosas do doente [3] e a sua apropriação como instrumento de apoio ao tratamento [4] (sem com isso esquecer que a fé conforta, mas não cura). Cabe ainda a prevenção quaternária, um conceito relativamente recente, que tem que ver com a ideia de que fazer mais — mais exames, mais tratamentos, etc. — nem sempre significa fazer melhor — ou seja, podemos estar a aumentar o risco e o desconforto do doente, sem daí retirar qualquer benefício para ele [5].

Falando em conforto, no hospital, uma perspectiva holística significa que o conforto do doente deve ser cultivado [6]. Estar internado numa enfermaria com mais oitenta e cinco doentes, como dizia o saudoso Raul Solnado numa das suas rábulas, vendo morrer um na cama ao lado dia sim, dia não (acrescento eu), em nada ajuda ao processo de cura. O conforto materializa-se, também, por exemplo, na sensação de presença [7] — presença do profissional de saúde, que é acessível ao doente, contrariamente à sensação de abandono que muitas vezes o doente vive, em que os seus ritmos de doença e de cura têm de se adaptar aos ritmos de trabalho do hospital ou do centro de saúde, quando o contrário deveria suceder.

Outro domínio onde uma abordagem holística é importantíssima é a saúde mental. Nos mais velhos, o estado cognitivo depende da vida que se viveu: complexidade da profissão na meia-idade, casamento, rede social, educação formal, actividades intelectuais, actividade física, alimentação saudável, motivação, sentido da vida e espiritualidade [8]. Nos mais novos, os médicos de família têm de estar preparados para reconhecer as formas comuns de apresentação da doença mental nos adultos jovens, nomeadamente a depressão, o suicídio, as perturbações do comportamento alimentar e o abuso de substâncias e saber lidar com elas não só do ponto de vista médico e medicamentoso, mas também do ponto de vista da promoção da saúde [9].

Antes de terminar, como já vem sendo hábito, é tempo de apresentar o objecto do dia. Já alguma vez pensou que o passeio é um objecto com impacto na saúde? Mas é! Quando as ruas não são desenhadas para os peões poderem circular à vontade — seja porque não têm passeios, ou porque estes são demasiado estreitos para permitir que os peões caminhem em segurança lado a lado com o trânsito automóvel — quando as ruas não são desenhadas para o conforto dos peões, a saúde das pessoas sofre de duas maneiras. Em primeiro lugar, porque uma rua pouco convidativa à caminhada faz as pessoas caminharem menos e optarem mais por meios de transporte alternativos e, com isso, perderem a sua condição física. Há vários estudos que encontraram uma relação entre ter um sítio para caminhar, ou viver numa zona amiga dos peões, com passeios e caminhos bem conservados, e a quantidade de exercício físico realizada. Em segundo lugar, porque quem se aventura por passeios estreitos ou pela berma, ou por estradas sem condições para a circulação pedonal, corre um maior risco de ser atropelado. Os passeios reduzem o risco de lesão por atropelamento em cerca de 28%.

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