Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada, como é sabido [1], fiz dois dias de greve e expliquei alguns dos motivos subjacentes. No entanto, ficaram alguns por abordar e prometi que o faria hoje. A greve acabou, é certo, mas a luta continua.

De facto, muitos dos motivos desta greve são problemas que se arrastam há anos e não se resolvem da noite para o dia, pelo que, com ou sem greve, vale a pena falar deles.

Falemos, pois!

O excesso de horas de trabalho consecutivas traz incontáveis malefícios para a saúde dos trabalhadores. Uma das razões para a greve foi a redução da duração dos turnos de urgência para doze horas consecutivas. Os médicos não são máquinas e, portanto, não têm de colocar a sua saúde em risco, para fazerem turnos loucos de até 24 horas seguidas no serviço de urgência. Mas, além disso, fazer muitas horas não faz mal só à saúde dos médicos: também pode fazer mal à saúde dos doentes, porque muitas horas de trabalho seguidas intensificam o cansaço, diminuem a concentração e aumentam, por essa razão, o risco de erro. Ora, quando um médico erra, quem paga é o doente… Portanto, esta reivindicação, além de beneficiar os médicos, beneficia ainda mais os próprios doentes.

Aliás, muitos dos motivos desta greve e muitos dos motivos de queixa dos profissionais de saúde (e aqui não falo só dos médicos) estão intimamente relacionados com a defesa dos interesses e do bem-estar dos doentes e da qualidade dos cuidados de saúde prestados no Serviço Nacional de Saúde. É curioso que, muitas vezes, os médicos são acusados de se servirem do argumento da defesa do SNS para promoverem os seus próprios interesses, quando, de facto, muitas das reivindicações dos profissionais de saúde, médicos e não só, resultam da sua observação in loco de que as decisões políticas colocam em causa a qualidade dos serviços de saúde, como é o caso desta — a redução da duração dos turnos de urgência — que acabei de referir.

Como disse na semana passada [1], os médicos querem fazer menos horas extraordinárias. Mas querem também ser mais bem pagos pelas horas que fizerem. Ou melhor, querem que o pagamento seja reposto como era antes dos cortes da troika. Não é pedir muito, acho eu…

Também não é pedir muito a redução do número de doentes atribuídos a cada médico de família. Actualmente, um médico de família chega a ter 1900 doentes na sua lista, a quem tem de atender, tanto a nível preventivo e de acompanhamento geral, através dos programas de saúde infantil, saúde materna, planeamento familiar, hipertensão e diabetes, como a nível de doença aguda, na consulta aberta e de intersubstituição. Dividindo o número de horas que um médico de família trabalha, em média, por ano pelo número de doentes inscritos na sua lista, dá menos de uma hora, por doente, por ano. Para um adulto saudável, que talvez precise duma consulta por gripe num ano inteiro, dez minutos chegam. Mas uma grávida, uma criança ou um doente hipertenso ou diabético precisam de muito mais consultas e mais compridas, pelo que o médico tem de lhes dedicar muito mais do que uma hora, num ano. Portanto, os médicos de família reivindicam, com toda a justiça, a redução do número de doentes para 1500.

Na semana passada, como falei muito, não tive tempo de abordar o objecto do dia, mas hoje não vou cometer o mesmo erro. Então, falemos do colete salva-vidas. Os primeiros eram feitos de cortiça, há mais de duzentos anos, e desde essa altura que têm salvo vidas (excepto as das pessoas que os não usam). A estatística diz-nos que apenas um em cada cinco tripulantes de embarcações usa um colete salva-vidas, apesar de sabermos que, em caso de naufrágio, usar o colete reduz muito a probabilidade de afogamento. A estatística também ilustra isto, pois sabemos que quase nove em cada dez vítimas de afogamento não usava o colete salva-vidas. Parte do problema é a variabilidade das regras de utilização do colete salva-vidas, de país para país, porque a ciência também demonstrou que a obrigatoriedade legal é mais eficaz do que as campanhas de sensibilização em fazer com que os tripulantes de embarcações coloquem o colete.

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