Por Gustavo Martins-Coelho


Toda a gente diz que há falta de médicos em Portugal. Menos as pessoas que percebem do assunto. Vá — e quem conhecer a Pordata [1]: basta uma consulta rápida para ver que Portugal tem 442 médicos por 100.000 habitantes, enquanto a Alemanha tem 411; a Bélgica 298; a própria Espanha, que era famosa, há uns anos, por exportar para cá os médicos que tinha a mais, 380; a Finlândia 339; a França 334; a Itália, apontada no meio científico como um exemplo de países com excesso de médicos, 388; o Luxemburgo, onde moram imensos portugueses [2], 286; os Países Baixos, de que eu gosto muito, 335; e o Reino Unido, do qual o nosso Serviço Nacional de Saúde foi decalcado, 278. Portanto, ou nós temos médicos a mais, ou metade da Europa tem médicos a menos. Como eu não creio que os Alemães, os Franceses e os Britânicos andem por aí a morrer pelos cantos, por falta de assistência médica, então só resta uma conclusão…

Mas nem sequer seria necessário compararmo-nos com os outros, se soubéssemos ler os sinais. O principal sinal de que temos médicos a mais é o facto de nem sequer sermos capazes de os formar a todos até ao fim. Neste momento, estamos a criar um contingente de médicos indiferenciados — pessoas que fizeram o curso até ao fim e a quem, no final, foi negado o acesso à formação especializada, que lhes permitisse adquirir uma especialidade. E foi negada porquê? Por falta de vagas!

— Ficam clínicos gerais e vão trabalhar para o centro de saúde, atender doentes — dirá o leitor.

O que o leitor talvez não saiba é que, no centro de saúde, nas unidades de saúde familiar e nas unidades de cuidados de saúde personalizados, trabalham médicos de família, especializados em medicina geral e familiar. Não são clínicos gerais, são especialistas em medicina geral e familiar. E trabalham, também nos centros de saúde, mas nas unidades de saúde pública, médicos de saúde pública, que também são especialistas — em saúde pública [3, 4].

Ou seja, não há clínicos gerais no Serviço Nacional de Saúde. Nem tem de haver. A qualidade da medicina garante-se, entre outras coisas, fazendo com que esta seja praticada por especialistas — cada um na sua área. E uma medicina exercida com qualidade é fundamental para que os serviços de saúde prestem cuidados de qualidade aos doentes que os procuram.

Daí que os médicos continuem em luta, de modo a garantir que todos os que acabam o curso de medicina tenham acesso a uma vaga de internato médico, a qual lhes vai permitir tornarem-se especialistas e contribuírem, dessa forma, para um Serviço Nacional de Saúde de elevada qualidade, nas suas diversas vertentes, nomeadamente de cuidados primários e hospitalares.

Dito isto, antes de acabar, vou falar do objecto do dia. Para hoje, escolhi as luvas. Não umas luvas quaisquer; muito menos as luvas que se usam por aí para conseguir favores ou manter alguém calado [5]. Claro que estou a falar das luvas usadas pelos profissionais de saúde. Tudo começou quando o William Stewart Halsted, o primeiro cirurgião chefe do Hospital Johns Hopkins, nos EUA, pediu, em 1894, à Goodyear Rubber Company (sim, a dos pneus) que fabricasse finas luvas de borracha para proteger as mãos da enfermeira que o assistia (e que mais tarde veio a tornar-se sua mulher) dos desinfectantes e produtos químicos que eram agressivos para a pele.

A moda pegou e outros profissionais dentro do bloco operatório começaram a usar também luvas durante as cirurgias e as infecções nos doentes diminuíram drasticamente. Pouco tempo depois, as luvas de borracha — que protegem tanto o profissional de saúde como o doente — tornaram-se uma peça obrigatória para os procedimentos cirúrgicos e outros tratamentos. Com o tempo, as luvas deixaram de ser feitas de borracha e passaram a ser feitas de látex e outros materiais.

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