Por Gustavo Martins-Coelho


Este é um texto curto, de revolta. Não são precisas muitas palavras, para dizer que estou irritado.

Primeiro, os números: o turismo é uma actividade económica que contribui para mais de 6% do produto interno bruto nacional, representa cerca de 14% das exportações e assegura quase 8% do emprego em Portugal. Até aqui, são relativamente boas notícias. Relativamente, porque o contexto internacional que tem sustentado o crescimento do turismo nacional não é eterno e convém não ficarmos demasiado dependentes duma fonte de rendimento económico que nada nos garante ser eterna.

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Mas não é sobre o apocalipse do turismo que quero falar. Quero mesmo falar dos turistas. Santo Deus! — os turistas são uma praga! Ainda na semana passada, um autocarro turístico bloqueou por completo, durante vários minutos, a paragem da Praça Filipa de Lencastre, no Porto, para esvaziar os turistas que transportava, como se pode ver na imagem ao lado.

Não se vê na foto, mas o autocarro tinha os quatro piscas ligados. Habitualmente, os quatro piscas servem para indicar que se está a fazer algo que se sabe ser proibido e ir prejudicar os restantes utilizadores da via pública, mas se está pouco ralado com isso. De facto, atrás dos quatro piscas do autocarro, ficou retido um eléctrico, um autocarro e uma interminável fila de trânsito, a perder de vista. Do lado direito do autocarro, ao fundo, vê-se um carro, que está indevidamente estacionado — outra praga — e impede a ultrapassagem dos veículos que não circulam sobre carris. Quanto ao eléctrico, com ou sem viaturas estacionadas irregularmente, não se pode desviar. O guarda-freio dirigiu-se ao motorista, perguntou-lhe pela guia e disse-lhe que não podia parar ali. Foi ignorado.

O que fica para a história é que cheguei dez minutos mais tarde do que o planeado ao meu destino, porque o autocarro se atrasou, por causa desta brincadeira. Provavelmente, outros passageiros terão iguais razões de queixa. Não pode ser: quem está a passear não pode intrometer-se e importunar a vida de quem está a tentar cumprir as tarefas, profissionais ou pessoais, do seu quotidiano.

Do alojamento e de como o Airbnb está a expulsar os portuenses de suas casas, nem vou falar. O Jornal de Notícias fez isso melhor [1].

A culpa não é dos turistas per se. É verdade. Simplesmente, é preciso disciplinar o turismo, enquanto actividade económica. A cidade é primariamente para os seus habitantes e acessoriamente para os que a visitam, não o contrário. O (próximo) presidente da Câmara vai ter de resolver este problema.

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