Por Gustavo Martins-Coelho


 

Estou curioso para saber se o encanto do Salvador Sobral começou a entrar em erosão, por causa da declaração que ele fez no concerto de apoio às vítimas [1] do incêndio de Pedrógão Grande [2].

Eu tinha a televisão ligada e a RTP 1 sintonizada durante o concerto, mas estava a ler sossegadamente o livrinho que a Isabel [3] me tinha emprestado e, portanto, o comentário passou-me ao lado. Só ouvi a música — e gostei do que ouvi, como poderia não gostar?

No dia seguinte, contudo, não pude eludir a polémica. Não se falava já mais do incêndio, nem dos fundos angariados no concerto, nem no que eles iriam ser gastos, se eram muito ou pouco dinheiro, nem na bela e grandiosa solidariedade solidariedade demonstrada pelos Portugueses, nem nada. Só se falava da frase do Salvador Sobral.

Consta [4] que ele disse:

— Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece.

E consta também [4] que isto gerou tanta indignação no Facebook, a nova praça pública, para onde foram deslocalizados os autos-de-fé, depois do Terreiro do Paço ter sido dedicado a outros autos [5], que levou o Salvador, logo no dia seguinte, a retractar-se publicamente e a pedir desculpa pelo comentário «inoportuno» [6].

O Salvador Sobral já antes tinha gerado a polémica e não só por dizer palavrões em público e em directo [7] — nisso, já tinha sido precedido por outros autores de vitórias nacionais [8].

O concorrente sueco da Eurovisão, que alguns teóricos da conspiração afirmam ser o Ken da Barbie, ficou muito indignado [9] com a afirmação do Salvador, de que a sua era uma vitória contra a música descartável [10].

Só que, lamento dizer, o Salvador Sobral tinha razão em ambos os casos.

As pessoas vão aos concertos e esquecem-se da música. As pessoas aplaudem tudo. O técnico de som sobe ao palco e o público aplaude. Os músicos sobem ao palco e o público aplaude histericamente. Dizem boa noite e o público grita, como se um incêndio tivesse irrompido na sala. Só não fogem. Ao primeiro acorde, ainda eu não percebi que canção aí vem e já meia dúzia de jovens (habitualmente do sexo feminino) se arrepela, «porque é a minha favorita»! O cantor solta o primeiro verso e metade do público nem sabe o que ele está a dizer, entre gritos e palmas. Quando chega o refrão, o público já nada ouve, porque só berra — não raramente as palavras erradas e quase sempre fora de tom, o que diz muito sobre o nosso sistema de ensino, que, em dois anos de Educação Musical (será que Educação Musical ainda faz parte do currículo escolar do 5.º e 6.º anos? tenho de verificar), não é capaz de ensinar, sequer, o conceito de afinação (e muito menos o de ritmo, como demonstrou plenamente o maravilhoso momento, já nos idos anos noventa, em que o José Mário Branco interrompeu o seu concerto no Coliseu do Porto, para ensinar o público a bater palmas com a música — a compasso).

Como a poesia e a música que a veste são cada vez piores (pense-se, por exemplo, no refrão duma das canções [americanas, porque só o que é falado em Inglês é que é bom] que tem feito imenso sucesso na rádio este ano e que diz coisas tão eloquentes como [tradução e pontuação {para tornar a coisa minimamente inteligível} minhas]: «Estou apaixonado pelas tuas formas,/atraímos e repelimos como um íman./Mesmo que o meu coração também se esteja a apaixonar,/estou apaixonado pelo teu corpo./Na última noite, estiveste no meu quarto/e agora os meus lençóis cheiram a ti./Cada dia, descubro uma coisa nova,/estou apaixonado pelo teu corpo./Oh! Eu! Oh! Eu! Oh! Eu! Oh! Eu/estou apaixonado pelo teu corpo!/Cada dia, descubro uma coisa nova,/estou apaixonado pelas tuas formas.»), os artistas recorrem a fogo-de-artifício (tanto em sentido figurado como literal), para esconderem essas fragilidades e manterem o público deslumbrado, tanto no Festival da Eurovisão como fora dele.

E o público deixa-se deslumbrar.

Só que, agora, chega o Salvador Sobral, a dizer que o rei vai nu, a malta não gosta de ouvir e fica muito ofendida.

Desculpem lá, mas o Salvador Sobral tem razão: o rei vai mesmo nu e vocês, no meio da vossa alienação acrítica e bovina, aplaudem qualquer coisa que se vos plante à frente. Desconfio que, se ele levasse a sua ventosa ideia adiante, seria efectivamente brindado com um aplauso e gritos de «só mais um!»

Quem diz a verdade não merece castigo.

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