Por Gustavo Martins-Coelho


 

A minha última crónica, antes das férias que entretanto gozei e explicam o silêncio recente, terminou com as vacinas como objecto do dia [1].

Já andava para falar de vacinas há algum tempo, desde o início do surto de sarampo em Portugal [2] e da polémica em torno da jovem não vacinada que veio a falecer no Hospital D. Estefânia [3], que até deu origem a um «Prós e contras» dedicado ao tema: «A vacina da discórdia» [4]. Sobre o dito «Prós e contras», quero chamar a atenção para um momento em particular, no qual o Director-Geral da Saúde disse:

— Não podemos confundir opinião com ciência.

Eu não poderia estar mais de acordo. Mas atrevo-me a acrescentar ainda mais uma coisa: a opinião não pode ir contra a ciência!

O leitor atento já deve ter percebido que eu procuro trazer aqui mais ciência e menos opinião e que, mesmo quando dou a minha opinião sobre determinada matéria, tento que a mesma seja, tanto quanto possível, fundamentada em factos científicos. Aliás, até já expliquei a importância crucial do método científico como forma de conhecimento do mundo. Eu diria, sem medo, que a ciência, alicerçada no método científico [5], é, provavelmente, a melhor ferramenta que o ser humano conseguiu criar para conhecer e explicar a realidade que existe à sua volta, incluindo aquela que ele não consegue visualizar.

Mas voltemos às vacinas. Além do «Prós e contras», também o «Observador» decidiu deixar a pergunta no ar, publicando um artigo intitulado: «Vacinar ou não vacinar as crianças? Vale a pena perguntar?» [6]. A este artigo, bastava uma palavra, para ficar completo: não. Não vale a pena perguntar se devemos ou não vacinar as crianças. É uma pergunta que está respondida há séculos, desde que a vacina contra a varíola foi introduzida. A única doença que o ser humano conseguiu erradicar da face da Terra na sua História, fê-lo através da vacinação. Não foram os antibióticos, não foram as radiografias, não foram as técnicas cirúrgicas de ponta, não foi nenhuma evolução tecnológica: foram as vacinas. Se mais doenças, como, por exemplo, a poliomielite e o sarampo, não seguiram o mesmo caminho, isso deveu-se à nossa incapacidade de vacinar efectivamente todas as pessoas em risco, incapacidade essa em parte relacionada com a resistência cultural às vacinas que existe desde a sua invenção [7].

Mas as jornalistas do «Observador», Ana Cristina, Vera e Andreia, quiseram mostrar serviço e escrever um artigo mais comprido do que a simples frase «não vale a pena perguntar se vale a pena vacinar», que tudo resumia; e, então, foram falar com pessoas, para fazer o contraditório. Do lado de quem acha que não vale a pena vacinar, as jornalistas encontraram a Ágata, na sua qualidade de mãe. Outra mãe também entrevistada pelas jornalistas acha que só valem a pena algumas vacinas. Do lado oposto, o dos defensores das vacinas, as jornalistas obtiveram o testemunho do presidente da Comissão de Vacinas da Sociedade de Infecciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria [8], o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública [9], um médico pediatra, uma médica consultora da Direcção de Serviços de Promoção da Saúde e Prevenção da Doença, na Direcção-Geral de Saúde [10], e da Catarina, também na qualidade de mãe.

Nota o leitor algum desequilíbrio aqui? É natural: os especialistas no tema estão todos do mesmo lado; e a contestação parte de pessoas sem quaisquer credenciais na área. É por isso que, ao contrário do que diz a tal mãe Ágata no artigo do «Observador», a vacinação não é um dogma: a vacinação é um consenso científico. E as três jornalistas fizeram mau jornalismo, ao confundirem o contraditório, que requer a audição de várias partes para o apuramento dos factos, com a mistura entre opinião e ciência. Contraditório não é fazer equivaler a opinião manifestada por duas mães à opinião de todos os especialistas que entrevistámos; contraditório é encontrar vários especialistas em áreas diferentes, mas relacionadas, e pedir a sua opinião. Haveria, por exemplo, espaço para uma discussão interessante entre médicos de saúde pública e pediatras, quanto à importância das vacinas que não fazem parte do Programa Nacional de Vacinação. Isso seria um verdadeiro contraditório, que a Ana Cristina, a Vera e a Andreia não quiseram, ou não souberam, fazer. O resto, como dizia o Director-Geral da Saúde, é confundir opinião e ciência.

No «Prós e contras», o padrão foi semelhante. Do lado dos pró, estavam o Director-Geral da Saúde, que é médico de saúde pública; um imunologista do Instituto de Medicina Molecular; o coordenador da infecciologia pediátrica do Hospital de Santa Maria, que é médico pediatra; um advogado; e a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, que é, obviamente, enfermeira. Do lado dos contras, um médico de clínica geral aposentado, que, entretanto, se dedicou, para ocupar o tempo, à homeopatia; e um especialista em biomagnetismo. Tal como no «Observador», especialistas dum lado e leigos do outro. Sim, leigos: homeopatia e biomagnetismo são temas que abordarei aqui no futuro, esperando demonstrar, tal como já fiz em relação à acupunctura e outras medicinas pré-científicas [11], que não funcionam [12] — o que transforma os seus praticantes em, mais do que leigos, charlatães, não avalizados para opinarem sobre práticas médicas.

Ou seja, quem assistiu ao «Prós e contras» viu a opinião científica especializada de que a saúde pública é protegida pela vacinação, a opinião jurídica especializada de que a protecção da saúde pública se sobrepõe à liberdade individual de cada um, e a opinião leiga de quem se opõe com base em desinformação. Mais uma vez, isto não é contraditório. Contraditório seria, por exemplo, perguntar se a obrigatoriedade da vacinação propriamente dita (que, diga-se, em boa verdade, era para ser o tema do programa, mas acabou por não ser) acrescenta um benefício tangível à saúde pública, que justifique a sua sobreposição aos demais direitos, liberdades e garantias — e, aí, creio que já teríamos especialistas com posições bem diferentes.

Hoje, fico por aqui, com esta que é, no fundo, uma crítica ao jornalismo, que, em vez de informar, desinforma, porque, em vez de procurar questionar quem sabe, tenta fazer passar gato por lebre e dizer que basta perguntar a dois transeuntes o que acham sobre uma coisa de que nunca ouviram falar para estar feito o contraditório.

Para a semana, voltarei ao tema das vacinas, mas já para falar das mesmas propriamente ditas.

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