Por Gustavo Martins-Coelho


 

Nem de propósito, tinha prometido falar sobre vacinas, na minha última intervenção [1] neste espaço [2], e, entretanto, esta semana dei de caras com uma página no Facebook intitulada «Vacinas — por uma escolha consciente» [3].

Sou imensamente a favor das escolhas conscientes. Não gosto de fazer coisas porque sim, ou porque alguém mandou; gosto de compreender os motivos subjacentes. Portanto, se isto vale para mim, também vale para as vacinas.

Só que abri a página e correu-me mal: era uma página anti-vacinas. Escolha consciente? Nem por isso: a página estava pejada de argumentos insensatos e falsidades factuais sobre a vacinação, sendo, portanto, resumidamente, a página de mais um movimento anti-vacinação.

O que fiz eu, então? Felizmente, o Facebook tem uma funcionalidade muito útil, criada depois do escândalo das notícias falsas «que agora parece que se chama factos alternativos» — depois do escândalo das notícias falsas terem feito eleger uma cabeça de abóbora como presidente dos EUA [4]. Essa funcionalidade é a denúncia. Quer dizer, já era possível denunciar um utilizador, ou uma página, antes, mas só para conteúdos sexualmente explícitos, ou racistas, ou ofensivos. Agora, é possível denunciar algo por ser, simplesmente, fraudulento. Assim fiz: denunciei a página, por ser fraudulenta.

E por que é que é fraudulenta?

Para responder a essa pergunta, talvez devamos começar por falar um pouco da história e da base das vacinas. Como muitas histórias, esta tem a sua dose de elegância e de loucura. A história das vacinas propriamente dita começou em 1789, com um naturalista e médico britânico, chamado Eduardo Jenner, mas tem um prólogo e um epílogo; portanto, vamos começar por aí. O prólogo diz respeito à história da varíola, que é uma doença que acompanhou a humanidade, pelo menos, desde a Antiguidade, até 1980, ano em que, graças à vacinação, foi erradicada do mundo inteiro.

Voltando a 1789, por essa altura, a varíola matava que se fartava, mas nem toda a gente por igual. A grande observação do médico Eduardo Jenner foi que havia uma doença semelhante à varíola, que atacava as vacas, mas não as matava, e, mais do que isso, o Eduardo Jenner resolveu testar cientificamente a sabedoria popular, que dizia que as leiteiras eram imunes à varíola. Conforme já expliquei aqui [5], o método científico começa com a observação. Neste caso, o Eduardo Jenner observou que as mulheres que faziam a ordenha, quando expostas ao vírus bovino, tinham uma versão mais suave da varíola. A seguir, formulou uma hipótese: a de que o vírus da doença das vacas, quando infectava seres humanos, os protegia da varíola. E resolveu testar essa hipótese.

Não o fez de forma lá muito ética, diga-se de passagem, mas, nessa altura, ainda não existia a Declaração de Helsínquia [6]. Então, o que ele fez foi pegar em pus das lesões das leiteiras e inoculá-los em crianças saudáveis, incluindo o próprio filho. Depois, expôs essas crianças ao vírus da varíola e verificou que elas não adoeciam. Quer dizer, tiveram a mesma doença leve que o gado tinha, mas não morreram, como acontecia a quem apanhava varíola. Correu bem e foi assim que se descobriu a primeira vacina, que se chamou assim, porque o agente que estava a ser usado para proteger era o vírus vaccinia «o tal da doença das vacas». Se tivesse corrido mal, coitados dos miúdos!… Bom, como eu disse, ainda não havia Declaração de Helsínquia [6] e a vida humana não tinha o mesmo valor por igual que tem agora…

Como de costume com as grandes descobertas, houve cépticos a dificultar-lhe a vida e só nove anos depois é que conseguiu publicar o seu trabalho e ser reconhecido. Ainda assim, havia opositores que achavam — vá — nojento infectar pessoas com material proveniente de animais doentes. Só quando os benefícios se tornaram extremamente evidentes «ou seja, uns morriam e outros não» é que a coisa começou a ser aceite de forma generalizada; e terminou, como eu disse, com a erradicação da varíola.

Agora que já conhecemos a história da primeira vacina, é tempo de falarmos da base das vacinas e da minha denúncia ao Facebook e vermos como as duas coisas estão relacionadas. Mas só para a semana, porque a conversa já vai longa, por hoje!

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